quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Simplicidade Voluntária



          O essencial que traz felicidade

Mesmo em fases de economia desaquecida, as vendas no comércio seguem altas. O crédito fácil e a redução de impostos adotada pelo governo na última crise para estimular as compras causaram a corrida de consumidores às concessionárias de veículos e lojas de eletrodomésticos. Mas quem entra numa dívida sem fim para adquirir um novo carro, precisa mesmo dele? É um produto ou bem essencial para sua vida?
Em meio à onda de consumistas impulsivos, porém, há uma parte da população, embora em minoria, que tem seguido o caminho oposto, abrindo mão do consumo desenfreado, mesmo tendo alcançado condições financeiras para isso. São pessoas que adotaram a prática de simplificação da vida e que, com suas atitudes, trazem à tona a seguinte reflexão: o que você precisa para ser feliz?
Você vai saber o que leva pessoas a buscarem esse modo alternativo de vida, trocando o desperdício pelo consumo consciente, o luxo pelo simples, o “ter” pelo “ser”. Enquanto muitos passam a vida apenas trabalhando para buscar recursos que são transformados em bens, que mal são utilizados por falta de tempo, essas pessoas despertaram para o fato de que o essencial para a felicidade está muito distante do acúmulo de riquezas.



             Sonhos de consumo 

O desejo de adquirir bens atinge cada vez mais pessoas e deixou de ser privilégio das classes mais abastadas. Hoje em dia quase todos têm sonhos de consumo. Alguns ambicionam uma casa ampla com suítes, piscina e empregados. Outros um carro importado, aparelhos eletrônicos de última geração e roupas de grife. Até cidadãos com baixa renda possuem celulares, eletroeletrônicos diversos, automóveis, mesmo que seja necessário viver no vermelho ou entrar num longo financiamento que possibilite a compra desses produtos.  Mas tudo isso é mesmo indispensável para uma vida plena e feliz?
Indo na direção contrária a essa tendência, há um movimento transformador  que tem tomado corpo, chamado Simplicidade Voluntária (SV). “Seu objetivo é proporcionar as condições adequadas para que o indivíduo se liberte da pressão consumista e da ilusão de felicidade associada ao consumo e acumulação de bens materiais”, explica Paulo Roberto da Silva, professor universitário, doutor em ciências contábeis e autor do livro Consciência e Abundância. Ele trocou a atividade empresarial pela acadêmica em 1987 para intensificar a prática de simplificação da vida.
Silva conheceu o movimento através do livro Simplicidade Voluntária, do cientista social americano Duane Elgin, e imediatamente se identificou com o conteúdo. “Foi ótimo saber que mais pessoas no mundo queriam, como eu, levar uma vida mais leve e interiormente mais rica”. Na verdade, há raízes históricas de opção pela simplicidade e o professor aponta grandes personalidades mundiais que poderiam facilmente simbolizar a SV, como Gandhi, Sócrates, Buddha e até mesmo Jesus Cristo: “Os sábios de todas as épocas sempre sugeriram que deveríamos atentar para o nosso sentimento de apego aos bens materiais”.

Exercitando a simplicidade

A Simplicidade Voluntária ensina que o importante é dispensar nossa atenção àquilo que é essencial. “Quando temos, consumimos ou desejamos bens e serviços, parte de nossa atenção é direcionada a eles. Se esses bens e serviços não são essenciais, nossa atenção é diluída, dificultando a vivência de um estado de felicidade.”
E o que é essencial? “Cada indivíduo deve definir o seu essencial”, responde Silva, “identificado na medida em que aperfeiçoamos as respostas para as seguintes questões: Quem sou eu? Preciso do quê para ser feliz?” Neste sentido, é fundamental o autoconhecimento para se chegar a uma mudança interior que traga uma nova visão de vida, onde o “ser” seja mais importante que o “ter”.
Na economia predominante as necessidades são ilimitadas, lembra Silva. Mesmo quando se atinge um objetivo, sempre se quer mais. E questiona: “Como alcançar o estado de felicidade se tudo ao redor estimula para a insatisfação permanente?” Aí entra o desafio da simplicidade no viver. Nesta visão diferente de mundo, o importante é não se deixar influenciar. Exemplificando: não comprar o dispensável só porque está em promoção ou ainda trocar de carro por um modelo do ano porque seu vizinho, amigo ou colega de trabalho fez o mesmo.
O tempo e atenção não devem ser desperdiçados e sim dispensados para o que é importante. A energia gasta em busca do objetivo material pode desviar uma pessoa do convívio com familiares e amigos, do lazer, da manutenção da saúde, da qualidade de vida, enfim, da real felicidade. “O que temos de pagar de vida para termos o que queremos?”, questiona Silva, lembrando que podemos ter o tipo de riqueza que pouco dinheiro paga. 

Desapego

Optar pela SV não significa simplesmente viver com menos. “Se assim fosse, a Etiópia seria o país mais feliz do mundo”, explica o professor. Também não é se privar do que é importante para você. A orientação de Silva é buscar “tudo aquilo e só aquilo” que nos aproxima da felicidade. “Menos é privação e mais é desperdício de atenção com coisas irrelevantes para a nossa felicidade.” Não é preciso, portanto, abrir mão de todos os seus bens materiais para simplificar a vida. Não deve ser um sacrifício.
Silva conseguiu abandonar o telefone celular há aproximadamente três anos. Admite, porém, que a maior dificuldade é viver sem um carro, apontado por ele como um dos maiores problemas sociais e ambientais da atualidade. “Fui morar num sítio maravilhoso, mas distante 3 km do ponto de ônibus, fato que tem dificultado bastante o início da experiência. Tenho prestado bastante atenção nessa questão e suspeito que conseguirei me libertar do carro em breve e viver melhor.”
Ele conta ter encontrado o modelo de bicicleta que atenderá as suas necessidades, além de estudar alternativas para aproximar suas atividades para as redondezas da casa onde mora. “Só considero uma mudança ‘necessária’ se ela tornar minha vida exteriormente mais simples e interiormente mais rica. Além disso, posso voltar atrás, caso a experiência não produza os efeitos esperados. A simplicidade precisa ser ‘voluntária’, inclusive no sentido psicológico”.
A opção pela SV é mais fácil quando individual, mas perfeitamente possível em família. “Considero esse processo um desafio muito estimulante de autoconhecimento e amadurecimento das relações familiares”, diz Silva, recordando que já viu crianças surpreendendo pais, sugerindo mudanças interessantíssimas para simplificar a vida da família. “As pessoas são diferentes e viver bem é um conceito subjetivo. Suponho que a palavra-chave é ‘respeito’ pelas diferenças”.

Estilo de vida

O terapeuta corporal Jorge Mello considera a Simplicidade Voluntária mais um estilo de vida do que um movimento. Mello é referência sobre o tema no Brasil. Estuda e pratica a SV há muitos anos. “Conheci a visão da Simplicidade Voluntária na década de 80, através dos escritos de Gandhi (Mahatma Gandhi, pacifista indiano), Thoreau (Henry Thoreau, defensor do conceito de desobediência civil) e E. F. Schumacher (economista alemão, autor de ‘The Small is Beautiful’ ).” Experimentou no cotidiano da Ecovila de Findhorn, na Escócia, a aplicabilidade dessas idéias e em 2003 fez o curso Simplicidade e Mudança Social no Schumacher College, faculdade britânica de ecologia e ciências holísticas, voltada para o desenvolvimento sustentável.
Jorge Mello vê “uma progressão notável” da difusão da SV no Brasil e no mundo: “Temos na Europa e nos Estados Unidos um crescente e pouco noticiado interesse pelo consumo consciente, pela revisão do modo de utilizar o tempo, pelas ações redutoras da emissão de CO(dióxido de carbono) e pouco a pouco também ganham espaço algumas idéias como a Slow Life (vida calma, em tradução literal), em suas muitas possibilidades, e a Felicidade Interna Bruta (FIB), como indicador alternativo ao PIB, Produto Interno Bruto”. Foz do Iguaçu, no Paraná, sediou a 5ª Conferência Internacional sobre a FIB, um cálculo que considera outros aspectos além do desenvolvimento econômico, como a conservação do meio ambiente e a qualidade da vida das pessoas.
Não há levantamento oficial sobre o número de adeptos da Simplicidade Voluntária no país. Segundo Mello, isso porque “(a SV) é um metaconceito bem amplo, que abarca desde consumir com consciência e moderação até optar por assistir menos televisão”. Mas ele acredita que há milhares de pessoas optando por viver de maneira mais simples em São Paulo e um número muito expressivo em todo o Brasil. Nos Estados Unidos, informa, há estimativas que apontam para um percentual de 10% da população que adota práticas de viver com mais simplicidade, o que indicaria, aproximadamente, 20 milhões de pessoas.
Viver a simplicidade só traz benefícios. “Como um estilo de vida mais frugal nos concede a possibilidade de dispormos de mais tempo e energia para os aspectos existenciais, naturalmente poderemos desfrutar de mais poder, liberdade e qualidade de vida, no sentido mais amplo do termo”, constata Mello, lembrando que “as práticas do viver simples beneficiam, ao mesmo tempo, sua saúde, seu bolso e o ambiente natural”.
Jorge Mello explica que a Simplicidade Voluntária pode restituir-nos o poder de fazer opções com maior lucidez e de viver de forma mais consciente. “Embora pareça ser algo trivial, ainda assim isso é muito raro em nossos dias”, finaliza.

Luciana de Melo (locutora e jornalista)

Instituto Bem Simples: www.simplicidade.net

Simplicidade Voluntária, Editora Cultrix, de Duane Elgin.

Consciência e Abundância, de Paulo Roberto da Silva.